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A CIDADE ANTIGA A cidade de uma rua só: desenvolvimento urbano I
A Enchente de 14 foi uma das responsáveis pela mudança no aspecto da cidade. Naquele período, Ubaitaba (ainda como arraial de Tabocas) era uma cidade de uma rua só, com um pequeno núcleo urbano seguindo o leito do rio. A partir da enchente, as pessoas passaram a se preocupar mais com a proteção das casas e começaram a construir mais afastado do rio e o arraial foi tomando outros rumos e novas ruas começaram a surgir. Até 1930 desenvolve-se o que hoje conhecemos hoje como centro da cidade. Surgiu a rua do Zinco (atual avenida Presidente Vargas), Praça João Pessoa (atual praça 27 de Julho, a principal da cidade). De meados de 30 para cá, o casario começa a crescer na avenida Presidente Vargas e surge à parte central dessa avenida (do fórum até o posto de gasolina), naquela época esse trecho era conhecido como “Cachorro Assado”, além dessa área desenvolve-se também a Praça 24 de outubro, (posterior praça da Bandeira e atual praça Dr. Xavier). Início da década de 40, já com a estrada de ferro, a cidade tem um novo desenvolvimento. Desse período em diante, os moradores de Itapira começam a subir a ladeira e desenvolve-se as ruas Joaquim Távora, atual Renato Laport, Praça Santo Antonio e forma-se também as ruas das Pedras, Siqueira Campos, atual Pontal, e rua 2 de Julho (veja o mapa urbanoda cidade há 50 anos atrás na página 32). Com um comércio bastante desenvolvido criaram a praça da Feira, que teria seus dias de glória aos sábados. Com o surgimento dessa praça, década de 40, as pessoas novamente passaram a investir em construções nas proximidades do rio e a própria prefeitura deu início as primeiras obras nessa localidade. Criando diversos portos para atender ao comércio e a feira. Viver em “Baitaba” nessa época era bem diferente. Praticamente não existiam automóveis, os primeiros automóveis são do final dos anos 40 pra início de 50. Um dos primeiros carros de linha foi a Marinete que levava o pessoal até Ilhéus pela estrada de barro. Esse carro ia abarrotado de gente e parava em tanto lugar que faz até pena contar. Tinha um outro também, chamado “Trole” (ou trolho), esse era bem rústico e para nós hoje, engraçado. Diversos homens, cerca de seis, iam empurrando o carro com umas varas, assim como se fosse uma canoa ou uma balsa. Seguia até Ilhéus. “Êta sufoco de quem ia empurrando esse carro movido a vara!” O bom mesmo era ter uma besta, ou um cavalo possante para os passeios dos coronéis. As senhoras de família preferiam sair de carroça. Dia de domingo, era aquele desfile. Alguns modelos eram escolhidos e encomendados com todo cuidado pelas madames. Uma boa carroça, em Itapira era como um carrão importado hoje. Um outro aspecto interessante era a questão da iluminação. A cidade foi desenvolvendo-se e a profissão de acendedor de lampiões foi sumindo. Sim, esse profissional era importantíssimo, todo dia ele estava lá acendendo os lampiões dos postes da cidade de um a um. Mas não eram tantos assim não, até 1940, em Itapira só existiam cerca de 60 lampiões espalhados pelas áreas centrais da cidade e dos povoados. Acendia por volta das 6 horas da tarde e lá pelas 12 horas da noite, quando o gás acabava as luzes apagavam e a cidade ficava na escuridão. Nos dias de Lua era mais sossegado, às vezes nem precisava acender tudo. Mas o ruim mesmo era quando chovia e o acendedor não aparecia para cumprir sua função e a população ficava revoltada. A população de Faisqueira, por exemplo, denunciava constantemente que o acendedor não ia à rua da Jaqueira nesses dias deixando a população no escuro e com medo dos baderneiros que se aproveitavam desses momentos para “praticar vadiagem”. Era nessa paisagem urbana, formada por poucas ruas que os cerca de 3 mil habitantes viviam e se divertiam na Cidade Antiga. Os divertimentos Até a década de 30, Ubaitaba, ou melhor, Itapira, já possuía algumas festas tradicionais em sua maioria, extinta. Quem ia a praça João Pessoa aos domingos podia apreciar as tradicionais cavalgadas que divertiam a população. Os cavaleiros se exibiam em possantes cavalos e ficavam a demonstrar suas habilidades com o animal. Cavalo era assunto certo nas rodas masculinas e os cavaleiros nas conversas femininas. Com o desenvolvimento do futebol em Itapira, de 1917 em diante, a cavalgada foi perdendo espaço até sumir quase por completo em 1930. Daí para cá somente alguns cavaleiros mantiveram a tradição que passou de pai para filho e até 1980 esse esporte ainda era comum na cidade, e na atualidade pouquíssimas pessoas ainda praticam. Uma outra festa tradicional também extinta foi o 2 de Julho. O 2 de Julho Comemorado em Itapira até 1929 esse festejo homenageava o dia Independência da Bahia. Começava pela tarde e ia até a noitinha. Faziam um carro de madeira, onde uma menina morena com feições e trajes de índia ia sentada em um trono sobre o carro. Um grupo de rapazes puxava esse carro pelas principais ruas da cidade, e outro, normalmente professores e demais intelectuais, falavam sobre a importância da data nos diversos locais por onde passavam. A população itapirense bem que sabia comemorar, naquela época, até meados de 40, tínhamos, além do tradicional Terno de Reis que era conhecido como “Baile Pastoril”, outros dois festejos populares, “A Burrinha” e o “Bumba-meu-boi” que completavam o terno. A Burrinha O povo se emocionava correndo atrás da burrinha que dava coice e pulava adoidadamente por toda a Itapira. “A Burrinha” na verdade era um homem vestido numa armação de madeira coberta de pano e algodão e uma sela fictícia, com uma mão o homem segurava a rédea e com a outra o chicote. O povo ficava adorava brincar com a Burrinha, a criançada ficava eufórica quando via aquele homem vestido naquela fantasia fazendo aqueleas palhaçadas. A animação ficava por conta de alguns músicos locais como Florisval Ramos e Antonio Moraes. Faisqueira também tinha essa tradição. “A Burrinha” durou até 1926. O Bumba-Meu-Boi A nossa cidade também teve o bumba-meu-boi. Durou até 1934. Esse festejo era muito popular na cidade antiga, aliado a Burrinha e o Baile Pastoril ele era uma sensação. O povo gostava de ver aquele boi correndo atrás das pessoas pelo meio da rua. O boi, que segundo a lenda, perdeu a língua para satisfazer o desejo da mulher grávida, parece que ficava furioso no meio da multidão e saía acertando todo mundo por onde passava. Para quem estava na rua era preciso ficar atento. Aquela armação pesada de madeira, recoberta de pano e chitão, aperfeiçoada para ter a forma de um boi, durante a festa parecia leve. O homem que ia ali embaixo aparentemente ficava mais forte agüentando aquilo e ainda correndo a noite inteira, sem contar o vaqueiro que ia guiando e domando “o animal” a chicotadas. Na verdade não era pra bater com o chicote não, só ameaçar, mais de vez em quando o vaqueiro errava e batia mesmo, era divertido, nos conta Aniceta, 92 anos. O Bumba-meu-boi assim como a Burrinha percorria os principais pontos de Itapira e tinha seu final na praça João Pessoa (atual 27 de Julho), isso já pelo raiar do dia e após muita cantoria e bebedeira. O Baile Pastoril O 1º foi do surgimento até 1925. Nessa época, Baile Pastoril tinha uma repercussão muito grande, era, ao lado do Carnaval, a festa mais importante no local. O Baile era formado por duas filas, uma de rapazes e outra de moças que seguravam caramanchões de onde pendiam inúmeras lanternas. Variavam muito as apresentações de ano para ano. Normalmente os festejos estavam ligados às comemorações da igreja Católica. Na frente desfilava um jovem levando o estandarte que possuía o nome do terno e o desenho de uma moça com a fantasia do mesmo. Os rapazes trajavam calça e paletó, sapatos e gorros. Uma moça inteiramente fantasiada trazia uma fantasia à cabeça (Antonio SANTOS, 1957, p13). Já o 2º período que vai de 26 até 36 foi um dos mais fracos. A tradição dessa festa quase desapareceu, sendo realizado pouquíssimas vezes. Somente a partir de 1936, quando se inicia o terceiro período é que o esse festejo volta a ter importância na cidade e passa a ser conhecido como Terno de Reis ou Reisado. Foi desse momento em diante que teve a participação de Renato Reis Lopes, ou simplesmente Renatão conta que: E se entusiasma ao lembrar daquela época. Esse terno, o das Falenas trouxe diversas meninas com 12, 13 e14 anos, vestidas de borboletas, nas cores brilhantes, verde, amarelo, vermelho e azul. A festa refletia muitos temas e assuntos que estavam em pauta no momento. Um dos mais empolgantes foi o Terno das Nações que saiu às ruas em 1938, quando o mundo se preparava para a Guerra. Diversas moças bonitas saíram em cima de uma prancha vestida com fantasias que lembravam a bandeira de cada nação, além de trazer a bandeira na mão. “A do Japão, trazia um símbolo vermelho na barriga”, alguns países como Alemanha, Itália, Inglaterra foram representados nesse terno. Renatão faz questão de ressaltar que nesse ano ele fez quatrocentas lanternas. As lanternas eram feitas de bambus e velas dentro. Após o das Nações, veio Terno das Corcundas. Esse foi um dos mais divertidos e tinha até uma marchinha: Quando o corcunda saía a passear. Outro terno que marcou muito foi o da Vitória. Feito em homenagem ao Brasil, após vencer na Segunda Guerra Mundial. Esse foi um dos maiores, feito num grande navio fictício. Os marinheiros vinham dentro do navio sem fundo e seguravam na borda dele para andar pelas ruas. Era tudo feito de forma artesanal e improvisado e as roupas eram de papeis coloridos. Teve também o Terno das Marujas, onde as mulheres saíram de havaianas e os homens de marinheiros. Na hora do baile, cada mulher colocava o colar de havaiana no pescoço do marinheiro escolhido para dançar. E assim se formavam belos pares na avenida para apresentar as coreografias treinadas no Terno. Era bonito, era tudo bonito, aqueles cordões, aqueles enfeites que o povo fazia, que Renato fazia. Sim, Renatão, aquele homem da praça. Elenízia, 67, doméstica Na atualidade o Terno de Reis conta com a organização da população loca, entre elas, Ivone Costa e Arlene Andrade, D. Nair Almeida e a participação Especial de Renatão. Que devido a sua idade atual participa num carro alegórico que desfila pela cidade. O terno ultimamente tem crescido e cada ano vem mais completo e com mais componentes. Possuindo diversas alas, mas a principal, sem dúvida é a que traz os três reis magos, os anjinhos e a porta estandarte com a bandeira tema do terno. De 2001 para cá, os temas foram: Terno da Camisa Vermelha, e por dois anos seguidos, o Terno das Ciganas. No último ano, excepcionalmente o terno saiu no Natal. Mi-Careme Talvez o nome soe estranho, mas era assim que se chamava os Micaretas de tempos atrás. Apesar de usarem caretas, todos queriam mesmo era ser reconhecidos como o destaque dessa festa. Nesses dias, era aquele fuzuê para vê quem conseguiria ser o cordão mais bonito, mais animado, a melhor prancha, escola de samba, melhor torcida, a mais organizada. Enfim, todos queriam aparecer na Micareta. E parece que todo mundo comparecia mesmo! Eram três dias de folia, caramanchões, desfiles, caretas, anilina, cordões, blocos, paquera e para os mais curtidores, bebida e lança perfume. Todos se apresentavam na praça João Pessoa e percorriam as principais ruas da cidade aqui e em Aurelino Leal. De dia a folia era aberta nas ruas, e a noite, no clube social23 ou em outros locais pré-programados pelos organizadores. O clube era para as “pessoas da sociedade” e o sindicato rural (em frente ao correio) era para aquelas da classe mais baixa. Não se sabe ao certo quando começaram as micaretas em nossa cidade. Primeiro surgiram os carnavais, que fez a alegria dos itapirenses até os anos 40, quando perdeu espaço para o Micareta definitivamente. Como os Carnavais aconteciam em diversas cidades da região era melhor fazer as festas de Micareta que aconteciam em datas programadas e não concorriam com outras cidades ao mesmo tempo. Quase sempre as Micaretas aconteciam em abril ou maio de cada ano. Na década de 40, como não existia voz da cidade ou rádio por aqui, o Micareta começava a ser anunciado um mês antes, todo final de semana. Um carro saia pela rua com um homem e uma mulher cantando e fazendo uma coreografia convidando as pessoas para participar do micareta e anunciando as atrações. Faziam marchinhas especialmente para a ocasião. A utilização de pranchas foi da década de 40 para cá. Com destaque para o 1001 noites, nele o sultão ficava rodeado de odaliscas que apresentava a dança do ventre, esse teve tanta aceitação que se apresentou em diversas cidades circunvizinhas sendo destaque em todas elas, inclusive ganhou o desfile em um Carnaval em Ilhéus na época; outra prancha que marcou muito foi O Tocador, sendo um dos mais românticos de todos. Muitas moças choraram ao ver aquela apresentação onde retratava uma donzela dentro de um castelo, a olhar pela janela e sendo cortejada pelo trovador que ficava embaixo a tocar violão e a desfiar lindas notas, o povo gostava tanto deste que saiu duas vezes. Outros bastante comentados pela boa organização foi a Micareta dos Bambas do Havaí e a da Viagem a Lua, uma das mais recentes. Eram sempre muito animadas, as principais atrações eram as tradicionais bandas de fanfarras com os seus maestros, clarinetistas, saxofonistas e tocadores de violão que faziam a alegria dos foliões. Alguns grupos locais já tinham o espaço garantido, como a Lyra de Itapira, Lira do Sul, Mestre Antonio Moraes, Mestre Júlio e outros. Dos anos 60 para cá, começaram a surgir os trios elétricos que rou
baram a atenção dos cordões e blocos de afoxé. Eram três dias de apoteose, muito loló, suor, barulho e alegria. Os trios elétricos como o Itajuípe, Os Tapajós, Lordão, Lord Mirim eram sempre muito animados. A Praça 27 de Julho e a Dr. Xavier ficavam repleta de pessoas das diversas cidades e da zona rural vizinha. Era muita gente! Gente que vinha se divertir e acompanhar as saudáveis disputas entre os blocos tradicionais e os cordões de afoxés ou vê a rainha da Micareta. Com a popularização do São João, fins da década de 70 para início de 80 os Micaretas desapareceram. São João Você tinha a impressão que ia ter guerra, o que fazia aqui o outro não podia fazer, nos conta D. Nair, uma das organizadoras dos São Joãos passados. Ela nos diz que o sigilo era absoluto na preparação dos arraiás para esse festejo junino em nossa cidade. A ornamentação que começava no dia 1º de maio ia até a data do São João, todos queriam ser o melhor, o mais bonito e todos ficavam bonito mesmo. Eram três dias de algazarra e folia na Avenida Presidente Vargas. A animação ficava por conta de músicos locais e de diversas cidades circunvizinhas e a alegria tomava conta dos participantes dos Arraiáis. A disputa para ser destaque, fazia com que cada ano se tornasse mais atrativo e mais pessoas tivessem envolvidas. Se um fazia uma ornamen Foi a partir dos anos 80 que o São João passou a ter o apoio do Poder Público e a Micareta e os Arraiáis foi deixado em segundo plano. Com essa estrutura, o São João cresceu tanto que no início dos anos 90 já era considerado um dos melhores da Bahia. Participavam dessa festa, além dos grupos tradicionais, as grandes bandas de axé da Bahia. Assim o São João foi deixando de ter o aspecto de festa bairrística e tradicional para uma festa maior, com aspecto de carnaval baiano. O São João sofreu uma decadência no final dos anos 90, quase desaparecendo. De 2001 para cá tomou um novo fôlego e está voltando a ter a repercussão de tempos atrás, só que agora no estilo modernizado, eletrônico. Tradicionalmente esse festejo estava sendo realizado na Avenida Presidente Vargas ou na Avenida Beira Rio, mas em 2004 aconteceu na nova praça Cultural, recém criada, com poucas ornamentações, palcos eletrônicos e bandas típicas do forró brasileiro. Ultimamente, o São João traz como tema a festa do Pitú sendo denominado como Pitú Forró, em 2004 foi promoviada a sua 4ª edição. Santo Antonio Além do São João uma outra festa tradicional na cidade era o Santo Antonio, festejo promovido pela Comunidade Católica local. Teve início desde a instalação da primeira freguesia aqui, em 1917, e dura até hoje. Começa sempre no dia 1º de junho e vai até o dia 13. Misturando o sagrado e o profano. Os festejos de Santo Antonio sempre foram realizados na praça e igreja Santo Antonio em nossa cidade. Mas teve um tempo que ficou sendo feito na Rua Alfredo Ferreira, enquanto a Igreja era reformada numa capelinha ali existente na época. Mas desde a renovação da igreja em 78 ela voltou a ser realizada lá na praça da igreja matriz novamente. A festa acontece em comemoração ao padroeiro da cidade que é o Santo Antonio. A igreja faz sempre um grande barracão para venda de comidas típicas e bebidas com a finalidade de arrecadar fundos para a paróquia local. Durante 13 dias de festa ininterrupta o Santo Antonio é a desculpa certa para quem quer encontrar um par. Os dias mais importantes são o dia 12, dos namorados, e o 13, dia de Santo Antonio. A estação era o ponto de encontro de muitas pessoas, era um divertimento a parte. A criançada às vezes esperava a hora do recreio para correr à estação e ficar a ver aquelas máquinas enormes com seus vagões de pessoas e mercadorias que chegavam ou saiam para Ilhéus, Água Preta, Itabuna ou para outros lugares. Seo Manduca nos conta entusiasmado Era um trem enorme, eu já viajei muito nele. Tinha a 1ª classe e a 2ª, quando eu vendia meu cacau, eu vinha era na primeira classe. As vezes eu ia a Ilhéus só para passear, vê as meninas. Não viajava muito não. Havia os trens de passageiros e os de carga, quando um chegava o outro saía. A primeira classe ficava na parte de trás onde o “pessoal da sociedade” ia sentado confortavelmente em bancos espaçosos. Já o pessoal da segunda classe ia amontoado no vagão da frente junto ao maquinista e ainda corria o risco de se queimar com as faíscas que saía do fogo onde o maquinista colocava o carvão. No trem de carga, denominado popularmente como o 13, o 14 e o 15 ou simplesmente como breque, os vagões eram colocados de acordo a quantidade de mercadoria, dependendo da necessidade podia viajar até com 10 vagões. Quase sempre o trem ia carregado de cacau que levava para o porto de Ilhéus e voltava cheio de mulheres e mercadorias que os fazendeiros traziam do comércio (Ilhéus). Tinha gente que ia só vê os trens, alguns ficavam impressionados com a máquina, mas outros iam mesmo pra vê quem eram as novas raparigas que chegavam para o Tampa Surrão em Aurelino Leal e o Cachorro Assado em Ubaitaba. Com a chegada da ferrovia, em 1930, Itapira experimentou um novo crescimento. O trem de ferro proporcionou um transporte mais seguro que as canoas para o nosso ouro (o cacau), além de facilitar a compra e venda de mercadorias em Ilhéus dando um novo impulso ao comércio local. Isso aumentou o movimento também em outros setores, como nos festejos, candomblés e cabarés. Cachorro Assado Ele dizia eu vou ali vender um negócio, mas já volto. Aí minhas amigas me falavam seu Piroca ta lá no Cachorro Assado, aí eu ia atrás, quando eu via ele tava grudado. Eu quebrava o pau, mas ele não queria voltar não. Hoje nos conta emocionada D. Eulina, ao se lembrar daqueles tempos em que enciumada ao saber que seu marido estava se divertindo nos cabarés da cidade. E hoje24 os dois riem juntos daqueles episódios. No tempo em que o dia de sábado, para a maioria dos homens, principalmente da zona rural, não era só dia de feira era também de ir no Cachorro Assado, rua famosa dos cabarés da cidade, naquele local era comum cenas de exuberância e extravagância. Se ainda existisse seria o lugar certo para se encontrar “mulher de vida livre” e estaria localizado das mediações do fórum até o posto de gasolina. As casas tradicionais no Cachorro Assado se alastravam a cada dia e a rua ia cada vez aumentando, havia a Casa dos Sete Buracos, Pensão de Dona Cabocla, Casa Vermelha, Casa de seo Quinininho, D. Maria Batuta, Maria Abafa Banca e o Cabaré do Agostinho. Havia ainda as casas de particulares alugadas ou montadas pelos coronéis para colocar as suas prediletas. Tinha meretrizes para todos os gostos, morenas, brancas, loiras. A maioria vinda principalmente do sertão, de Ilhéus, Água Preta, Itabuna, Barra do Rio de Contas e até mesmo da Bahia (Salvador). Chegavam no Ilhéus-Itapira na sexta e iam embora na segunda-feira. No cabaré do Agostinho, Embora não fossem muito queridas na cidade pelas senhoras casadas, as mulheres dos cabarés conviviam pacificamente com todos.E essa relação social era medida por algumas regras, a principal era a que regulava o horário das mulheres de família andar pelas ruas. Se andasse depois das 10 horas da noite pela rua e alguém mexesse, ela não poderia dizer nada né? Pois era horário de mulher de vida livre ta na rua. Dona Nalva,costureira, 66 anos. E assim iam se construindo as relações sociais na Ubaitaba Antiga. A partir das dez horas as mulheres de família deveriam estar em suas casas para não levarem fama do que não queriam, se passassem por aquela rua, pior ainda. Mesmo assim algumas senhoras inventavam compromissos em casa de amigas também de família, que moravam por aquelas bandas, só para “espiar” a vida dos outros. Lá ficavam olhando pelo buraco das portas as pessoas que entravam ou saiam das casas das meretrizes. “As vezes, a gente ia até a casa de Dona Dete e lá nós ficávamos espiando, para vê quem entrava e saía daquelas casas. Tinha muito homem casado, Ah, se tinha! Só que a gente não vai dizer né?. Nos conta Dona Rolinha e D. Maria26 moradora das proximidades do Cachorro Assado na época. Como se pode observar, esse lugar era diversão até para quem não freqüentava os cabarés. Sem contar que ele ainda tinha uma função social importante, era lá que os pais levavam os filhos quando eles estavam “na idade de se tornar homem”. E lá se iniciavam. Essa rua que era o tormento das senhoras casadas durou até o início da década de 70 e deu lugar a Avenida Presidente Vargas. Candomblé O Cachorro Assado não era só diversão não, era trabalho. Muita gente ia lá a trabalho sim, trabalho, despacho ou por religião mesmo. Os candomblés famosos da cidade funcionavam no final daquela rua. Se fosse hoje seria no final da Presidente Vargas, nas proximidades do posto de Gasolina ali existente. Era ali que muita gente de meio, e sem meio, se reuniam para cultuar suas divindades ou pedir uma forcinha extra para resolver ou causar alguns problemas. O lugar era muito freqüentado. Haviam muitas casas de candomblés no Cachorro Assado, mas nenhum foi como o de D. Silvéria Martins, a casa da mãe de santo mais solicitada da cidade nas décadas de 50 a 70. Se fosse em época de eleição então... Vinham muitos políticos na calada da noite. Vinha escondido né? pro povo não vê. Mas vinha sim. E muita gente da sociedade, gente de fora, gente de Ilhéus, Itabuna, muita madame de carro. Alguns políticos que a gente gostava agente sempre dava uma forcinha a mais. As vezes eles ganhavam e nem sabiam que a gente ajudou. D. Silvéria Martins, mãe de Santo, 85 anos. Eles mandavam a polícia vim fechar o negócio da gente, mas a gente era legalizada, aí eu mostrava a licença que eu tirei no tempo do Walter Passos. Aí eles voltavam, tinha uns guardas que ficavam comendo galinha mais a gente, brincado e bebendo mas ninguém fechava nada.(idem) O trecho acima nos mostra a influência que o candomblé tinha na sociedade da época. Algumas pessoas ficavam incomodadas, sobretudo com o barulho produzido pelos tambores, por outro lado também existia um grande comprometimento das próprias autoridades que gostavam da crença africana ou de algumas regalias proporcionadas pelos pais e mães de santo. Dia de tambor27 era aquela animação. Mas as maiores festas aconteciam mesmo no dia de Santa Bárbara e de Cosme e Damião. Nesses festejos, as comemorações chegavam a dois ou três dias. Uma das tradições era as mães ou filhas de Santo distribuir caramelos nas ruas e convidar as pessoas para a festa. Os candomblé foi tão importante para a cidade como qualquer outra atividade religiosa ou cultural. Inclusive os representantes, curandeiros e curandeiras e filhos de santo, desfilavam nos afoxés que saiam nos dias da Micareta. Eu não gostava muito de festa não. Mas nos pediram e agente colocou um afoxé. No Micareta o da gente foi escolhido como o de maior animação e organização. (ibidem) Os candomblés do Cachorro Assado foram removidos dali no começo das obras do cais da Beira Rio, dentre eles o de D. Silvéria. Ela teve que se mudar para o Matadouro. Segundo ela, o lugar que recebeu da prefeitura era tão ruim que em pouco tempo eles tiveram que fechar. Acabando assim, uma das mais tradicionais casas da religião africana em Ubaitaba. No cinema Aqueles filmes ou películas que diziam: Continua no próximo capítulo deixava muita gente apreensiva. Tinha que esperar a semana inteira para assistir ao final. Dia de sábado, o cinema ficava lotado. As películas estrangeiras, comédias, ação ou super-heróis como o Zorro, eram as preferidas. Mas os filmes brasileiros também não ficavam para trás. Dia de chanchada dispensava propaganda. Propaganda essa que era feita ao final de cada sessão, no boca-a-boca e em cartazes feito à mão e afixado nos principais pontos da cidade, nas farmácias, bancos, prefeitura. Para nós hoje, talvez achássemos tedioso assistir a um filme preto e branco, ainda por cima legendado. E o pior, umas legendas lentas que interrompiam o filme para aparecer. Mas na época o público adorava e sempre compareciam as sessões do cine-teatro. Cine-teatro sim, pois nessa época o cinema era uma espécie de centro de convenções da cidade e servia como teatro também. Os espetáculos teatrais muitas vezes antecediam aos filmes, enquanto o operador preparava os rolos de filmes para exibir. Até o final da década de 30 o cinema, denominado Cine-Teatro Itapira funcionava nas proximidades onde hoje é a Casa da Cultura. Mas em 1938 fechou e deu lugar a um novo cinema ainda maior, e que agora funcionaria na Avenida Presidente Vargas. O cinema era tão popular que para abrir um novo houve uma licitação pública, esse cinema deveria oferecer conforto, para no mínimo 300 pessoas, funcionar pelo menos 2 vezes por semana, aos sábados e aos domingos, inclusive com as sessões de matinês e deveria trazer também uma boa programação de filmes. Essas eram as exigências para quem quisesse ser dono do lugar mais freqüentado pela “alta sociedade” na época: O Cinema De 1940 para cá, o novo cinema, Cine-Teatro Vitória que posteriormente passou a se chamar Cine Lux, começou a funcionar regularmente na cidade. Com 300 lugares, a capacidade correspondia a 10% da população residente na cidade até a década de 50. Era muita gente! Gente feliz que sabia apreciar um bom filme. E fazia de tudo para não perder uma sessão. Tinha todos os dias, inclusive aos sábados, às 8 horas e aos domingos pela tarde e a noite. Com poucas opções de lazer, o Cine Lux era o ponto de encontro de muitas pessoas. E quantos romances não surgiram no escurinho do nosso cine-teatro? Nessa época, o cinema era para todos, tinha pra todos os gostos e bolsos, quem não podia ir no fim de semana ia no meio, quem não podia assistir ao lançamento (mais caro) ia nas reprises, o importante era não deixar de ir. Se o filme fosse bom, no outro dia era o assunto mais comentado da cidade. Tinha pessoas capazes de contar cada parte, cada detalhe do filme novamente. Alguns procuravam fazer amizade com o Seo Pereira, encarregado dos filmes e da portaria para vê se entrava de graça. Mas não tinha jeito! Era melhor assistir no meio da semana mesmo, Sera mais barato. O cinema era tão importante para época que até hoje é lembrado pela gente daquele tempo. Dona Elenízia que na década de 40 ainda era uma menina e estava empregada na casa do seu Vanderlino Bomfim diz que a sua patroa pedia para ela terminar os afazeres mais cedo que ela seria liberada para ir ao cinema. E na personagem de Dona Elenízia quantas pessoas não fizeram acordos para ir ao cinema. Se fosse dia de cinema brasileiro então. A cidade de muitas ruas: desenvolvimento urbano II A partir da década de 60, a cidade pacata e organizada urbanisticamente deu lugar a uma outra urbe. Com novos bairros, favelas e uma população não muito grande, mas cerca de 10 vezes maior que aquela dos anos 40, por exemplo. Temos de 60 para cá o aparecimento da avenida Walter Passos e de novos bairros, o da Conceição e Telebahia, década de 70, local onde pertencia as fazendas da família Xavier. Surgiram também, os bairros da Bela Vista, área da família Vasconcelos, e Ruinha fins de 70, o Lago, década de 80, nas terras antes pertencentes a família Vasconcelos. E mais recentemente, os bairros Armandão, década de 80, o Zitão, década de 90, e por último o Loteamento Rio das Contas, já nos anos 2000. E assim temos uma nova Ubaitaba. "Para conhecer a História de Ubaitaba: Livro Traços e Retratos da Nossa História" |